6. MEDICINA E BEM-ESTAR 13.3.13

1.  ESPERA DE MAIS RESPOSTAS
2. UMA FORA A MAIS PARA QUEM J VENCEU O CNCER

1.  ESPERA DE MAIS RESPOSTAS
Especialistas se surpreendem com o anncio de cura da Aids em criana, mas preferem aguardar antes de mudar tratamento
Cilene Pereira

PESQUISA - A mdica Deborah tratou o recm-nascido 

Na ltima semana, o mundo foi surpreendido com a notcia do que pode ser o primeiro caso de uma criana curada de Aids. Filho de uma me soropositiva que no havia feito pr-natal  e portanto no tinha recebido na gestao remdios que reduzem o risco de contaminao pelo feto  , o beb foi submetido a um tratamento preventivo anti-HIV intenso apenas 30 horas aps seu nascimento. Exames confirmaram a infeco, e a criana continuou sob tratamento at completar um ano e meio. Nos dez meses seguintes, os mdicos perderam o contato com o beb. Quando retornou ao hospital, em Mississippi (EUA), constatou-se que a presena do vrus havia cado a nveis indetectveis, apesar de o beb ter ficado sem medicao por quase um ano. O caso foi considerado uma cura funcional: quando a concentrao viral desaba a nveis no detectveis pelos testes mais sensveis e o HIV perde sua capacidade de replicao dentro do organismo.
 
At hoje, o nico caso reconhecido de cura (quando no h nenhum trao do vrus no corpo)  o do americano Timothy Brown. Por causa de uma leucemia, ele foi submetido a um transplante de medula ssea. O doador era portador de uma rara mutao gentica que aumenta a defesa contra o HIV. Ele permanece livre do vrus. No caso do beb, os mdicos acreditam que a administrao de trs drogas logo aps o nascimento evitou que o HIV tivesse tempo para se abrigar nos esconderijos (locais nos quais as drogas no tm ao). Eles so o principal impeditivo para a cura, uma vez que, cessada a medicao, os vrus ali alojados voltam a se replicar.  um achado excitante, disse a mdica Deborah Persaud, do Johns Hopkins Childrens Center, que acompanhou o caso. Tratando uma criana precocemente, podemos impedir a formao desses reservatrios de HIV.

A divulgao do caso despertou entusiasmo moderado. Em tese, a estratgia poderia ser usada para os recm-nascidos com alto risco de estarem infectados. No entanto, isso s poder acontecer se a evoluo a longo prazo da criana for realmente favorvel.  preciso mais tempo de segmento do caso, diz o infectologista Caio Rosenthal, de So Paulo. Temos sempre de ser cautelosos quando lidamos com um caso apenas, ressalvou tambm o mdico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Doenas Infecciosas dos EUA. Enquanto a resposta final no vem, os cientistas aprofundaro as investigaes. No Brasil, a mdica Valdila Veloso, da Fundao Oswaldo Cruz, tentar localizar e ver o que aconteceu s 1.684 crianas tratadas com regime semelhante ao aplicado nos EUA, em pesquisa feita na instituio em 2004. Quem sabe tambm encontramos uma boa notcia, diz ela. Tomara que sim. 


2. UMA FORA A MAIS PARA QUEM J VENCEU O CNCER
Programas de reabilitao para sobreviventes da doena se espalham pelo mundo. Eles previnem efeitos tardios do tratamento e melhoram a qualidade de vida dessas pessoas
Mnica Tarantino

Um novo modelo de ateno s pessoas que venceram o cncer ou convivem com a doena est ganhando espao na medicina. Nos Estados Unidos, 100 hospitais j implantaram programas destinados aos sobreviventes do cncer. A diferena em relao ao monitoramento padro feito aps o tratamento, em que o paciente retorna ao mdico em intervalos de tempo predeterminados,  a criao de equipes treinadas para reconhecer nesses indivduos alteraes relacionadas ao uso de quimioterpicos,  radioterapia ou sequelas deixadas por cirurgias que podem interferir na retomada do cotidiano. So sintomas como colesterol elevado, fraqueza, dificuldade de concentrao, dormncia em mos ou ps e perda de equilbrio.
 
O Hospital John Hopkins  um dos que aderiram a essa abordagem. Queremos garantir que os sobreviventes permaneam to funcionais quanto possvel, disse  ISTO Vanessa Wasta, diretora de relaes pblicas da instituio. Os pacientes recebem prescries de exerccio exclusivas, informaes de bem-estar e terapias de reabilitao especficas com base em suas necessidades.

SADE - Mariana concluiu o tratamento do cncer h 16 anos, mas faz controle do colesterol elevado, efeito dos remdios que tomou
 
At pouco tempo, essa preocupao com os sobreviventes no existia. O movimento ganhou fora quando a mdica Julie Silver, da Faculdade de Medicina de Harvard e especialista em medicina de reabilitao, teve cncer de mama e sentiu a carncia de apoio para voltar ao cotidiano depois do tratamento. Tinha trs filhos pequenos, estava fora do trabalho e me sentia devastada fisicamente. O mdico me disse para descansar, o que equivale a dizer que eu estava sozinha para me curar. Foi muito difcil, disse  ISTO. A partir da experincia, ela criou um programa para treinar oncologistas, especialistas em reabilitao e outros profissionais para rastrear nos pacientes os comprometimentos associados  toxicidade do tratamento. A assistncia mudou a vida da americana Sandra Wade, tratada no Hospital Jpiter, na Flrida. Minhas necessidades emocionais e fsicas esto sendo atendidas, diz.
 
Colabora para a expanso desse tipo de programa o aumento do nmero de sobreviventes. Uma estimativa da Associao Americana do Cncer mostra que em 2022 os Eua tero 18 milhes de pessoas nessa condio. A mesma preocupao comea a se mostrar na Europa. Recentemente, a Sociedade Espanhola de Oncologia Mdica (Seom) lanou um manifesto no qual defende a ateno permanente aos sobreviventes. Cinco por cento da populao espanhola ser sobrevivente de cncer em 2015. Deve ter suporte para se reabilitar, disse a ISTO o mdico Juan Jess Cruz, presidente da Seom.

No Brasil, os nicos programas so voltados para pacientes peditricos. No Grupo de Apoio ao Adolescente e  Criana com Cncer, a mdica Mnica Cypriano acompanha o crescimento de ex-pacientes com a ajuda de equipe multidisciplinar.  preciso ajudar as pessoas a superar os problemas decorrentes do tratamento, diz. Outro servio  o Grupo de Estudos Peditricos Tardios dos Efeitos do Tratamento Oncolgico, do Hospital A. C. Camargo, onde so atendidos 1,2 mil pessoas. Tornou-se essencial acompanhar esses indivduos na vida adulta para controlar o impacto dos efeitos tardios do tratamento, diz a mdica Ceclia da Costa. Uma das sobreviventes acompanhadas  a biomdica Beatriz Nunes, 24 anos, que teve um tumor sseo e hoje faz pesquisas sobre o cncer. Tive apoio psicolgico e de fisioterapia, diz. A professora de histria Mariana Arantes, 26 anos, tambm recebe auxlio. O servio me ajudou a superar a revolta de ter adoecido e a manter boa qualidade de vida, conta.
 
Para sobreviventes adultos brasileiros, o suporte  obtido em grupos de apoio, servios de psicologia dos hospitais, redes sociais e em portais especializados. Em algumas instituies, especialistas orientam os ex-pacientes a adotar prticas como meditao e ioga. H tambm centros como o Instituto Espao de Vida, criado pela sobrevivente Christine Battistini. Minha me teve mieloma e eu, tumor de mama. Ter suporte depois nos ajudou muito.

